quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tempo


Tempos antigos, imaginados mortos, insistem na memória. Poeira de épocas passadas a insistir no presente, instantes redivivos que teimam em permanecer. A vida é apenas o decorrer de momentos imprevisíveis, dirigidos pelo acaso, ventos no redemoinho de pequenos acontecimentos.

Caminhar no poente levaria à noite, às madrugadas frias do constante inverno onde, disse Fitzgerald, na noite escura da alma são sempre três horas da manhã. Tempo em que geadas trazidas pelo vento se depositam na escuridão das sombras pesadas de lembranças abandonadas.


Levantar-se, andar à procura da rosa da montanha. A chuva se aproxima em fluxos repentinos, inunda as trilhas, traz cores intensas aos crepúsculos em tons de luzes encarnadas. Talvez sejam auroras já perdidas. Lembram a intensidade dos rios no interior de terras imaginárias. Mesmo na memória das crianças o tempo insiste em confundir a calma de manhãs vividas.

terça-feira, 4 de julho de 2017

O enigma


Doka dizia que a humanidade ama a mentira e odeia o Bem, mas acredita que está sempre na busca da verdade e a fugir do Mal. Difundiu a falsa crença de que o Bem sempre vence aliado à virtude, à solidariedade entre os homens e à presença de Deus. A História, no entanto, comprova a  prevalência do Mal, da guerra, do genocídio, de toda sorte de crimes, da corrupção e da violência. E Deus não existe.

Ele também não acreditava no amor, pois entendia ser um sentimento em que seres egoístas se refugiam, solitários e tristes e confusos, acreditando na força sublimada das emoções para evitar a loucura e adiar a tragédia da morte. Mas a morte, ao fim, conquista a vitória para compensar a ilusão da vida.


Doka um dia sumiu e nem mesmo sua família jamais soube para onde fora ou se recolhera. Nós, os seus amigos, continuamos a conviver com o mistério do seu desaparecimento. De vez em quando alguém aparecia na mesa do bar com a falsa notícia de que ele tinha sido visto em algum lugar. Mas Doka levou consigo o enigma que passou a representar. Pelo tempo passado até hoje, talvez já tenha morrido em algum lugar, talvez não. Um sábio, ou apenas um ilusionista ou farsante, penso que na verdade ele representou a má consciência da minha própria juventude.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Retirantes

                                                                                                                                     Portinari

Deponho aqui com palavras
o pensamento assim cristalizado
entre colunas de ódio, de amor
e sentimentos tortos de abandono.

Sobre ilhas, sobre a multidão
de retirantes que há cem anos
passam em frente a esta casa
e trazem marcas do sertão.

O sertão da Paraíba: fuga
e cansaço entre os arbustos,
areia fina, cactos sangrentos
e sede e fome nauseada.

A cara amarelada dos defuntos,
o deformado corpo das crianças,
o riso desdentado dos doentes,
o opaco olhar de cegos e aleijados.

A vida insistindo longe dos tapetes,
da decorada sala de escritório,
da mesa posta para a ceia
de tâmaras e nozes e maçã assada.

São estes rostos sem boca, olho
e nem toque remoto de esperança
a dizer que as tardes são manhãs
de noites penetradas de agonia.

São ecos impotentes entre o som
das caixas eletrônicas, do ritmo
batido dos surdos, das guitarras
e da voz dos amplificadores.

A encardida, grossa pele
das prostitutas de catorze anos
no trotoir das ruas do Recife,
as suas pernas cobertas de feridas.

Está aqui, no ar das avenidas,
o que restou da dor destas meninas:
o seu sorriso de gengivas podres
pelas calçadas do Capibaribe.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

A vida



Um escritor expõe suas entranhas. Procura iludir seus leitores, assume uma postura distante, às vezes cínica, como se não fosse dele o sofrimento, a angústia que desponta na ficção que produz. Flaubert dizia que Madame Bovary era ele próprio. Esta divisão da própria personalidade em tantas vivencias é o que faz de um autor o escravo dos seus próprios fantasmas.

Dos poetas, então, as almas se dilaceram, às vezes. Poe, alcoólatra, viveu os últimos anos a ganhar um pouco de dinheiro para beber recitando O Corvo, seu poema mais célebre, nos botequins de Baltimore. Ginsberg emitiu um lancinante Uivo de angústia existencial, Alvares de Azevedo, tuberculoso, morreu com 21 anos. Maiakovski se matou, assim como seu amigo Essenine.

Doka, que era um bêbado, insistia que toda esta sina tinha raízes no mito da felicidade dos homens. A insistência em ser feliz, contrariando o destino da vida, conduzia à decepção e à própria infelicidade. Ninguém nasceu para ser feliz, ele dizia, pois se contentava em retirar da vida apenas a vida, ela só.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O bandolim



A música de um bandolim trouxe a poeira do tempo em que os sons misturavam-se a lembranças abandonadas. Meninos corriam contra o vento, espalhavam seus gritos pela chuva. Os olhos do poeta cego procuravam ouvir e compreender o que pudesse existir de beleza em volta. E de poesia, sim.  Entender o que faz uma criança incorporar na alma o fascínio da chuva e o que há de mágico numa ventania.

Mulheres de negro sentavam-se às calçadas e olhavam apenas o passar do mundo. Pouco havia de sons além da música do bandolim que era tocado por um velho de cabeça baixa, pernas cruzadas e ele também perdido nas fímbrias do seu próprio tempo. As nuvens tangidas pelo vento traziam também o coro das tempestades que tornavam a paisagem vazia como a solidão dos mortos.

Nenhum de nós conseguia entender além daquela música mas sabíamos que algo existiria acima de todas as coisas, mesmo dos sons das notas espalhadas pelo espaço do tempo incompreensível. A distância e as emoções despertadas faziam pensar em algo que estava além, muito além do coro das crianças que corriam contra o vento desafiando o som, a beleza de um bandolim sob as nuvens aziagas do final de um dia.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Noite



Aves mortas penetram no sono da criança. Ela se move entre os pequenos corpos imóveis de penas suaves agitadas pelo vento. Depois há um tigre com estrias vermelhas e olhos de fogo incandescente. A criança olha em torno e volta-se para o arco-íris colorido. Mais uma vez o vento se transforma na tempestade de tons negros, cinza e bordas escarlates.

As cores se transformam também nas sombras que avançam  vindas do horizonte e toda a paisagem se move na direção de um lugar que não existe. Somente o pensamento aproxima esta paisagem da vida que vai nascer em algum lugar distante, úmido de chuva, sombrio como a noite das paragens frias.

E mais uma vez renasce o desejo de ver o voo dos pássaros inertes que atapetam o chão com penas movidas pelo vento. Os outros animais aproximam-se lentos, curiosos, amedrontados. Ignoram o significado de tudo, o chão de vidro assume a opacidade dos ventos e a criança, uma vez mais, tenta vencer o assomo de lágrimas intensas e da noite que nunca mais terminará.

sábado, 29 de abril de 2017

Ilha Vitória



O executivo da multinacional que me acompanhou durante dez dias bebia muito. Todos os expatriados que moravam na Nigéria, naquele tempo, bebiam muito. A paisagem era feia e confusa na imperfeita cidade de Lagos. No dia em que cheguei oito acusados de roubo foram fuzilados na quente manhã de sol, perto do hotel, numa praia da Ilha Vitória, que foi urbanizada no tempo dos ingleses. Vimos os condenados passar conduzidos na carroceria de um caminhão sinistro.

Durante muito tempo não consegui esquecer os rostos negros e tristes, o olhar perdido em algum ponto que não era ali, naquele lugar, a praia aonde foram conduzidos para serem mortos. O mais jovem era quase um menino, o jornal dizia que havia roubado um aparelho de som.

Na tarde do mesmo dia fomos para o aeroporto para embarcar em direção a Kaduna. O voo atrasou como sempre. Marcado para as duas da tarde,  decolou às sete da noite. Passamos o tempo no bar miserável, lotado e barulhento. Quando embarcamos estávamos bêbados. Durante a viagem continuamos a beber de uma garrafa que trouxéramos na mala de mão. Alguns muçulmanos estenderam tapetes no corredor do avião e rezaram em direção a Meca. Conversamos sobre muitas coisas, bêbados mas no entanto conscientes. Não conseguimos falar daqueles que haviam sido fuzilados, naquela manhã, na praia da Ilha Vitória.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mudanças



A viagem de 11 horas atravessando o Atlântico a deixou inquieta, de mau humor, no desespero da prisão de uma caixa sem conforto. Miou seu protesto durante todo o voo até a chegada num aeroporto movimentado, ameaçador. Submeteu-se com paciência ao exame minucioso das autoridades e aguardou curiosa a apresentação dos certificados que atestavam a sua saúde. Para quem havia saído do clima do Rio em pleno calor de janeiro, não pareceu estranhar o frio intenso da cidade desconhecida.

Ocupou a nova casa, bem menor que a anterior, e percorreu cada canto enquanto a pequena cadela, silenciosa durante toda a viagem, a acompanhava com os olhos. Nos poucos dias de sol das primeiras semanas, procurava os raios filtrados pelas nuvens para fugir do frio do Norte de Portugal. Em breve, ambas sentiram-se à vontade, adaptadas a um país diferente.

Acostumou-se ao canto dos novos pássaros e às árvores que não eram mais as palmeiras que lhe fizeram companhia desde quando era um filhote ingênuo. Tornou-se amiga de uma oliveira plantada no pequeno jardim e passou a perseguir os insetos estranhos que habitam a nova paisagem. Ainda não lhe foi possível caçar uma das gaivotas do Rio Douro mas também não desistiu. Algum dia vai conseguir, pois a vida é assim - desafiante, trazendo consigo a permanente surpresa das emoções até então desconhecidas e que lhe dão significado e sentido.


sábado, 15 de abril de 2017

Aniversário

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Quando nos conhecemos éramos muito jovens e cada um de nós pai de duas filhas. Egressos do jornalismo, trabalhávamos na mesma agência de publicidade, pois para quem era muito jovem, tinha família e precisava de dinheiro, a publicidade pagava melhor. Numa prolongada noite em um bar de Belo Horizonte selamos nossa amizade. Descobrimos que havíamos lido os mesmos livros, ouvido as mesmas músicas, gostávamos dos mesmos filmes e tínhamos a mesma visão do mundo.

Foi um encontro que durou mais de cinquenta anos. Perpassamos ideias, tivemos vitórias e fracassos,  vivemos num país em que muitos amigos morreram na prisão sob tortura, algumas vezes nos separamos e tornamos a nos encontrar. Continuávamos a conversa interrompida. Ele, cristão. Eu, não tinha Deus como referência porque não recebi a graça da fé. Mas ambos acreditávamos na luta pela justiça social, na paz e no destino superior do homem.

Sua morte me fez pensar na passagem do tempo, no tempo cujo significado é a vida presente. O futuro é sempre o lugar em que estamos e o passado é feito de momentos mortos. Do passado restarão apenas a intensidade de alguns instantes vividos, o amor pela vida e uma antiga e boa amizade. Hoje, dia 15, era seu aniversário.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Anna



Sua alegria deixava no entanto transparecer a tristeza que seus gestos largos, o riso aberto e a forma franca de falar não conseguiam esconder. Talvez nesses momentos ela se achasse mesmo feliz, pois assim representava, incapaz de uma palavra que pudesse desmentir aquela euforia diante dos acontecimentos  da vida.

Assim ela era. Ou como os outros a viam. É mesmo difícil perceber quando há uma sombra no fundo do olhar enquanto a boca e o riso procuram acompanhar gestos largos mas aflitos. Sua voz era sempre alta, às vezes parecia expressar timidez, em outras transmitia o ligeiro tremor que perpassa as almas em desespero.

A maior lembrança da sua presença não me vem da felicidade em que todos acreditavam mas sim da melancolia, da desesperança que seus olhos transmitiam discretamente, sufocando o riso. Num dia muito claro, de muito sol sobre as praias do Rio de Janeiro, quando ela se matou, todos os que a conheciam se disseram chocados, surpreendidos pelo inesperado. Mas seu olhar sempre anunciara aquilo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Os mortos



Convivemos com nossos mortos. Lembrá-los é uma maneira de mantê-los vivos na nossa vida. A memória deles nos ajuda a evitar a despedida que sabemos eterna. Enquanto envelhecemos aumenta a quantidade dos amigos e dos mais próximos, amantes e conhecidos que partiram antes de nós. Teu pai morreu, teu avô também, em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, nos lembra Drummond em seu poema de passagem de ano.

A dor da lembrança e dos instantes perdidos estará sempre conosco enquanto vamos a ficar cada vez mais sozinhos. A solidão da vida presente na lembrança dos nossos mortos. Eles vão nos acompanhar para sempre. De repente um rosto, uma gesto, uma palavra vai nos trazer a imagem de alguém que um dia nos acompanhou num breve espaço da nossa existência.

Aprendemos a lidar com a morte pela dificuldade de entender o amor e seu desejo de ser eterno enquanto sabemos pouco, muito pouco sobre a vida. Nada esperamos de paragens desconhecidas, de seus traços e da ausência que transporta consigo apenas a dor e seus contornos indefinidos.