quarta-feira, 9 de maio de 2018

O velho e o tempo



Tempo frio e a chuva fina cobrem de cinzento as ruas da cidade. O velho se desloca pelas calçadas estreitas na direção do bar. As árvores verdejantes lembram que a primavera está presente em todas as plantas, em todos os jardins, na juventude em que a natureza, uma vez mais, desperta para outro ciclo do tempo. As meninas do colégio passam pela praça larga na direção de algum lugar onde a alegria continuará a transbordar dos sorrisos.

A memória persegue o velho que tenta olhar para o futuro. Existem amarras onde a vida se ancora e há sempre algum esforço para desatá-las e continuar a navegação. Pois o passado dificulta o renascer da vida. No entanto há brisa após a chuva, o vento desamarra a lembrança e existem as paisagens, a surpreendente descoberta dos segredos.

Uma passagem pelo serpentear do rio, como se fosse o espelho das curvas da existência, no acaso em que habitam todos os seres vivos, a beleza das coisas, a inútil compreensão do mundo e todos os calafrios. Por fim o bar quase vazio, a paz da meditação serenando os espíritos inquietos que nunca deixaram de acompanhar o velho desde sua mais antiga infância.



domingo, 29 de abril de 2018

Réquiem sem música




Réquiem sem música

Edna St. Vincent Millay
Trad. Celso Japiassu


Não estou resignada em se encerrarem corações amantes no áspero chão.
É assim, e assim será pois sempre foi assim pelos tempos afora:
Na escuridão eles partem, os sábios e os gentis. Coroados
de lírios e de louros eles se vão; mas não estou resignada.
Amantes e pensadores estão dentro da terra contigo.
Juntos com a poeira inútil e opaca.
Um pouco do que sentias, do que tu sabias,
Uma fórmula, uma frase permanecem – mas o melhor está perdido.
As respostas rápidas e sábias, o honesto olhar, o riso, o amor, –
Eles se foram. Eles foram alimentar as rosas. Elegante e sinuosa
é a flor. Perfumada é a rosa. Eu sei. Mas não estou de acordo.
Mais preciosa era a luz em teus olhos do que todas as rosas do mundo.
Dentro, dentro, dentro da escuridão da tumba
Suavemente eles se vão, o belo, o terno, o gentil;
Quietamente eles se vão, o inteligente, o sábio, o bravo.
Eu sei. Mas não estou de acordo. E não estou resignada.


Dirge Without Music 

I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely.  Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains,—but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,—
They are gone.  They are gone to feed the roses.  Elegant and curled
Is the blossom.  Fragrant is the blossom.  I know.  But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know.  But I do not approve.  And I am not resigned.


Edna  St. Vincent Millay, “Dirge Without Music” from Collected Poems © 1928, 1955 by Edna St. Vincent Millay and Norma Millay Ellis. Reprinted with permission of Elizabeth Barnett and Holly Peppe, Literary Executors, The Millay Society.
Source: Collected Poems (HarperCollins, 1958)


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Cinco bêbados imortais



Os puros e sem vícios são às vezes cheios de amargura porque tentam mudar o mundo para faze-lo melhor, à sua imagem e semelhança. E fracassam. E não são tolerantes com as fraquezas e limitações próprias da humanidade. O comportamento humano os decepciona e angustia.

Os derrotados da virtude, ao contrário, mostram o que somos em nossos limites. Marcelinho Cachaça foi um dos cavalheiros mais nobres que conheci, assim como Dudu Garcia, Gelon Siqueira e Manuel Amaral. Alcoólatras desesperados, disfarçavam sua tristeza numa alegria divertida, no riso cristalino e na irônica sabedoria.

Dudu, a quem nenhuma mulher conseguia resistir. Gelon e a sua voz rouca que o violão acompanhava em canções belas e dolorosamente sofridas. Amaral era um fascinante contador de histórias que ninguém apostaria ser verdade ou ficção. Doka, outro dos bêbados sábios com quem convivi, certa vez me disse, citando quem não se lembrava, que embriagar-se anima nossa loucura e nos transporta a regiões supremas onde somos mestres do nosso próprio destino.




terça-feira, 10 de abril de 2018

A silhueta



A silhueta transpõe
os limites do muro:
é um desenho de sombras.

Os braços revolvem os traços
e ampliam imagens
impregnadas de chuva.

As portas se abrem
e as retinas de um velho se fecham
em solilóquio mudo.

A cidade desperta pelos ventos,
murmúrio
no vazio dos espaços.

Sem origem ou nome,
acompanha uma palavra,
inania verba, seus íntimos ruídos.

Ruas desaguam como rios
e canalizam os ventos, sopram
memórias em oceanos represados

no estuário das distâncias,
à margem das arquiteturas
num gesto construídas.

Um cão mistura-se à poeira,
gane, rasteja para as sombras,
perscruta o enigma, corre e some.

Na fronteira da noite, surge o dia,
a tarde ensolarada, e um gemido
libera o sentimento que o prendia.

Os sons reproduzem vidas primitivas,
existências afogadas,
mares antigos.

Testemunha de ausências,
êste é o mar que acompanha
o vento chegar a seu destino.

sábado, 31 de março de 2018

Visita


Homens e mulheres que foram meus amigos
penetram no meu sono.
Estão mais jovens do que eram
na hora de sua morte.

Têm o mesmo rosto de quando
havia futuro nos seus dias.

Esses mortos foram meus amigos.
Conheço-os pelo nome, conheci suas almas
e o ritmo dos seus passos.

Agora eles penetram silenciosamente no meu sono.
Trazem algum mistério
que desperta e me convida
para um sono maior e mais profundo.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O anjo


                                    L'Ange du Lazaret, Marc Petit, Cahors

Sem perdão, o anjo decaído vaga do lado de fora dos portões do Paraiso. Do lado leste, onde pássaros estranhos, escuros, rondam os passos notívagos dos condenados. Em sua volta eles voam, grasnam, levantam as asas e misturam sua penas com a linha de um horizonte onde as sombras se levantam e cobrem as primeiras manchas tingidas da aurora.

O rumo das serpentes, a viração doentia de um vento úmido prenunciam enchentes, destruições e palavras sem sentido de sacerdotes cegos de fúria clamando arrependimento. Só restam traços da caminhada em fuga da vingança.

Anjo negro destituído de aura, feio, olhos ausentes, rosto encovado dos vampiros, exibindo sua angústia do lado de fora das igrejas, mendigando nada. Traz consigo só meditação sombria, eterna indagação sobre o destino das coisas intangíveis e a surpresa dos que foram desprezados às margens do Aqueronte.